Aumento no Número de Fumantes no Brasil: Uma Inversão Preocupante Após 20 Anos

SAÚDE

Pela primeira vez em quase duas décadas, o Brasil registra um aumento significativo no número de fumantes, revertendo uma tendência de declínio que era motivo de orgulho nacional. De acordo com dados recentes divulgados pelo Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, representando um crescimento de cerca de 25%. Esse fenômeno acende um alerta vermelho para autoridades de saúde, especialistas e a sociedade como um todo, pois o tabagismo no Brasil, que vinha diminuindo consistentemente desde o início dos anos 2000, agora ameaça retomar força. Mas o que está por trás dessa inversão? E quais são as implicações para a saúde pública e a economia do país? Neste artigo, exploramos as razões para o aumento do tabagismo, seus impactos e estratégias para combatê-lo, tudo baseado em fontes confiáveis e dados atualizados.

Brasil ocupa papel de destaque no combate ao tabagismo nas Américas |  Agência Brasil

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Ilustração de uma pessoa fumando cigarro, representando o hábito que afeta milhões de brasileiros.

Para contextualizar, é importante lembrar que o Brasil foi pioneiro em políticas antitabagismo. Desde a implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2005, o país adotou medidas rigorosas, como proibições de propaganda de cigarros, aumento de impostos e campanhas de conscientização. Esses esforços resultaram em uma queda drástica: em 1989, cerca de 35% dos adultos fumavam, caindo para 9,3% em 2023. No entanto, os dados preliminares da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2024 mostram uma reversão preocupante. Como destacado pela Agência Brasil, esse é o primeiro aumento desde 2007, e ele é mais acentuado entre mulheres, com um salto de 7,2% para 9,8%, e entre jovens de 18 a 24 anos .

Razões para o Aumento do Tabagismo no Brasil

Vários fatores contribuem para esse aumento no número de fumantes no Brasil. Um dos principais é a popularização dos cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes ou pods. Apesar de proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009, esses dispositivos são facilmente acessíveis via comércio ilegal e redes sociais. Especialistas apontam que os vapes atraem especialmente os jovens, com sabores atrativos e a falsa percepção de que são menos prejudiciais que os cigarros tradicionais. De acordo com o pneumologista Rafael Rodrigues de Miranda, professor do Grupo MedCof, esses produtos têm alto potencial viciante, com concentrações de nicotina que podem ser até maiores que as dos cigarros convencionais, formando uma nova geração de tabagistas .

Outro elemento chave é o enfraquecimento das políticas de controle do tabagismo. Por oito anos, o preço dos cigarros não sofreu reajustes significativos, tornando-os mais acessíveis em um contexto de inflação e desigualdade econômica. Mônica Andreis, diretora-presidente da ACT Promoção da Saúde, enfatiza que a falta de aumento nos impostos sobre o tabaco facilitou o acesso, especialmente para populações de baixa renda. Além disso, as campanhas de conscientização, que foram intensas nos anos 2000 e 2010, perderam força, sendo substituídas por outras pautas de saúde pública. Como resultado, o conhecimento sobre os riscos do fumo diminuiu, particularmente entre adolescentes e jovens adultos .

A vulnerabilidade mental da população também joga um papel importante. Com altas taxas de depressão e ansiedade no Brasil – agravadas pela pandemia de COVID-19 –, muitos recorrem ao cigarro como uma forma de alívio temporário do estresse. A diretora da Vital Strategies, Angela Sardinha, observa que o tabagismo se entrelaça com questões de saúde mental, criando um ciclo vicioso onde o hábito agrava os problemas emocionais em vez de resolvê-los. Ademais, a indústria do tabaco continua a inovar com produtos como cigarros com aditivos de sabor, que mascaram o gosto amargo e atraem novos consumidores .

Não podemos ignorar o impacto socioeconômico. Regiões mais pobres, como o Norte e o Nordeste, apresentam taxas mais altas de tabagismo, onde o acesso a informações e serviços de saúde é limitado. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que o tabagismo é mais prevalente entre indivíduos com menor escolaridade, reforçando desigualdades sociais. Essa combinação de fatores – inovação da indústria, políticas enfraquecidas e contextos sociais – explica por que o aumento de fumantes no Brasil ocorreu de forma tão abrupta.

Os Efeitos Devastadores do Tabagismo na Saúde

O tabagismo não é apenas um hábito pessoal; é uma ameaça à saúde pública que causa milhões de mortes anualmente. A OMS classifica o tabagismo como a principal causa de morte evitável no mundo, responsável por cerca de 8 milhões de óbitos por ano. No Brasil, estima-se que o fumo mate mais de 160 mil pessoas anualmente, com custos diretos ao sistema de saúde superando R$ 125 bilhões em tratamentos para doenças relacionadas.

Entre os efeitos do tabagismo na saúde, destacam-se as doenças cardiovasculares, como infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), que representam 30% das mortes ligadas ao fumo. O câncer de pulmão é outro vilão clássico, com 90% dos casos atribuídos ao cigarro. Mas os danos vão além: o tabagismo causa enfisema pulmonar, bronquite crônica, úlceras gástricas e até problemas de fertilidade. Fumantes passivos também sofrem, com riscos aumentados de asma, infecções respiratórias e câncer. Crianças expostas à fumaça em casa têm maior probabilidade de desenvolver problemas respiratórios crônicos.

Hábito de fumar pode causar pelo menos 50 doenças - Governo do Estado do  Ceará

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Infográfico ilustrando os males do tabagismo para fumantes ativos e passivos.

Os cigarros eletrônicos, embora promovidos como alternativa “segura”, não escapam das críticas. Estudos preliminares indicam que eles podem causar danos pulmonares agudos, conhecidos como EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de vaporização), e contêm substâncias cancerígenas como formaldeído. No longo prazo, o risco de dependência à nicotina é alto, levando muitos usuários a migrarem para cigarros tradicionais. Como alerta a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o tabagismo deve ser visto como uma doença pediátrica, pois muitos começam na adolescência, comprometendo o desenvolvimento pulmonar e cognitivo .

Economicamente, o tabagismo drena recursos. Uma pesquisa da ACT Promoção da Saúde revela que, para cada R$ 156 mil de lucro das empresas de tabaco com cigarros legais, há uma morte relacionada ao fumo. Os custos incluem tratamentos médicos, perda de produtividade e pensões por invalidez. Em um país como o Brasil, onde o Sistema Único de Saúde (SUS) já está sobrecarregado, esse aumento no número de fumantes pode agravar a crise orçamentária.

Estratégias para Reverter o Aumento de Fumantes no Brasil

Felizmente, há caminhos para combater essa tendência. O governo precisa retomar políticas robustas, como o aumento de impostos sobre produtos de tabaco, alinhando-os aos custos sociais gerados. Campanhas de conscientização devem ser revitalizadas, focando em jovens e utilizando plataformas digitais para contrapor a influência das redes sociais. A proibição efetiva de vapes, com fiscalização rigorosa, é essencial.

Programas de cessação do tabagismo no SUS, que oferecem patches de nicotina, medicamentos e terapia comportamental, precisam ser ampliados. Iniciativas como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, podem servir de catalisador para ações educativas. Empresas e escolas também podem contribuir, promovendo ambientes livres de fumo e programas de bem-estar.

Campanha Antitabagismo

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Poster de campanha antitabagismo, destacando que fumar não é hábito, é risco de óbito.

A sociedade civil tem um papel crucial. Organizações como a ACT e o INCA defendem regulamentações mais rígidas contra a indústria do tabaco, que usa táticas de lobby para atrasar medidas. Educar sobre os efeitos do tabagismo na saúde desde cedo, integrando o tema ao currículo escolar, pode prevenir novas gerações de fumantes.

Em resumo, o aumento no número de fumantes no Brasil é um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Com ações coordenadas, o país pode retomar sua posição de liderança no controle do tabagismo, salvando vidas e recursos. Se você ou alguém próximo luta contra o vício, procure ajuda profissional – parar de fumar é o melhor investimento para uma vida mais saudável.

FAQ

Qual é a principal razão para o aumento de fumantes no Brasil em 2024? O principal fator é a popularização dos cigarros eletrônicos e o enfraquecimento de políticas antitabagismo, como a falta de reajuste nos preços dos cigarros e campanhas de conscientização reduzidas, conforme dados do Ministério da Saúde.

Quais são os riscos à saúde associados ao tabagismo? O tabagismo causa doenças cardiovasculares, câncer de pulmão, enfisema e problemas respiratórios, além de afetar fumantes passivos com riscos de asma e infecções, segundo a OMS.

Como o governo pode combater o aumento do tabagismo? Através de aumentos de impostos, fiscalização contra vapes ilegais, expansão de programas de cessação no SUS e campanhas educativas direcionadas a jovens.

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